sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

POSSE DIRETORES DA REME


























































































EDUCAÇÃO É TUDO!


Claudio Bernabucci - Carta Capital


Formado em Ciência Política na Universidade La Sapienza, em Roma, é ex-assessor internacional da prefeitura da capital italiana e ex-funcionário da ONU. Interpreta o Brasil, país que escolheu para morar a partir de 2010, aos olhos do mundo.
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Fronteiras

30.01.2013 09:18

O otimismo da vontade

Acontecimentos de enorme gravidade que se sucederam nas últimas décadas em escala planetária arriscam de nos condenar ao pessimismo mais sombrio. A exploração exasperada da natureza, as mudanças climáticas e suas destrutivas consequências, o crescimento das desigualdades e, sobretudo, a incapacidade da política mundial de contrastar tais fenômenos, parecem conduzir a humanidade a um beco sem saída.
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / ABR
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / ABR

Ao mesmo tempo, casos específicos, mas de grande importância simbólica e factual, indicam que uma política inovadora e previdente pode servir como força motriz para a melhora da qualidade de vida da humanidade. Não me refiro apenas a fatos históricos já consolidados, mas a sucessos mais recentes, tais como os progressos generalizados na África (considerado continente perdido até poucos anos atrás) ou os surpreendentes avanços econômicos dos países emergentes.
A história, é notório, avança de forma descontínua e contraditória. E a humanidade, para não sucumbir a desafios que parecem insuperáveis, precisa dotar-se de uma boa dose de otimismo na ação, para manter aberta a esperança. Esse é o corolário indispensável do pessimismo com que nossa razão olha para as grandes missões. A necessária mistura entre pensamento crítico e vontade de alcançar nossos ideais permite as mais ousadas realizações, como brilhantemente sintetizado por Antonio Gramsci na fórmula “pessimismo da razão e otimismo da vontade”.
Partindo dessas premissas, chama a atenção um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) que coloca a Coreia do Sul nos vértices mundiais no setor da educação. País de dimensões pequenas (90 vezes menor que o Brasil), mas com população relativamente numerosa (50 milhões de habitantes), conquistou nos últimos dez anos resultados econômicos formidáveis. Em 1948, no pós-Guerra, partiu de um nível de pobreza entre os mais altos do mundo, para chegar hoje à uma riqueza de Primeiro Mundo (renda per capita de 24,5 mil dólares). Ingrediente principal desse sucesso foi, sem duvida, a ênfase e os investimentos feitos em uma educação de excelência. Os resultados dessa política são significativos: em 1948, a população analfabeta chegava a 78%; hoje 98% das pessoas entre 25 e 34 anos completam a escola secundaria e 80% dos jovens de 18 anos ingressam na universidade. Os governantes coreanos entenderam cedo que essa era a única saída para um país pequeno e pobre de recursos naturais. Sem querer tomar o exemplo asiático como modelo para nós, ocidentais, isso demonstra de forma irrefutável que a educação de excelência produz um desenvolvimento amplo e promove setores de vanguarda. De todos os pontos de vista, é um ótimo exemplo de aplicação do otimismo da vontade.
No Brasil, a natureza, pródiga de todas as riquezas, parece não ter induzido os governantes do passado a investir no capital humano, mas, ao contrário, a explorá-lo na procura do enriquecimento de poucos. Quanto aos governantes do presente, que parecem ter as melhores intenções de inverter a tendência, na prática estão percorrendo um caminho de desenvolvimento já trilhado por outros e que corresponde prevalentemente a interesses também de outros.
Enquanto os países qualitativamente mais avançados há mais tempo entraram na pós-moderna “sociedade do conhecimento”, o Brasil parece concentrar-se na tentativa de industrialização nos patamares que outros países realizaram no século passado.

Por que então não tentar encurtar o caminho da historia, recolhendo lições de sucessos alheios, para acelerar um processo original de desenvolvimento que, sustentando uma indústria de qualidade, dê mais espaço à educação, à pesquisa e à inovação?
As grandes políticas precisam de importantes recursos financeiros e humanos, além da vontade de realizá-las. O Estado, que hoje não tem possibilidade de grandes investimentos na educação, poderia considerar um imposto extraordinário plurianual sobre os patrimônios, que, historicamente, foram isentados de contribuição significativa ao bem-estar social. Existe no País um estrondoso silêncio sobre a possibilidade de que os ricos paguem mais impostos, na medida, por exemplo, adotada pelo principal país de referência dos endinheirados nacionais, ou seja, os Estados Unidos. Tal política – comentarão os perplexos – vai produzir resistências e conflitos, inimigos da estabilidade social. Seja bem-vinda a luta política no país do homem cordial, dizemos nós, porque nenhuma conquista social na história veio por gentil benevolência das classes dominantes, nem por graça divina.
Quanto aos recursos humanos para implementar uma grande política de educação, no Brasil, inteligências abundam. Mas, nesta fase, nos parece que há carência de certo otimismo da vontade. Em outros termos, talvez seja a hora de solicitar aos políticos visionários que ressuscitem das cinzas.

A IMBECILIZAÇÃO DO BRASIL


Mino Carta - Carta Capital

Editorial

01.02.2013 08:33

A imbecilização do Brasil

Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há muito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…
Os derradeiros, notáveis intérpretes da cultura brasileira já passaram dos 60 anos, quando não dos 70, como Alfredo Bosi ou Ariano Suassuna ou Paulo Mendes da Rocha. Sobra no mais um deserto de oásis raros e até inesperados. Como o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, que acaba de ser lançado, para os nossos encantos e surpresa.
Nos últimos dez anos o País experimentou inegáveis progressos econômicos e sociais, e a história ensina que estes, quando ocorrem, costumam coincidir com avanços culturais. Vale sublinhar, está claro, que o novo consumidor não adquire automaticamente a consciência da cidadania. Houve, de resto, e por exemplo, progressos em termos de educação, de ensino público? Muito pelo contrário.

Nossa vanguarda. Imbatíveis à testa da Operação Deserto
Nossa vanguarda. Imbatíveis à testa
da Operação Deserto

E houve, decerto, algo pior, o esforço concentrado dos senhores da casa-grande no sentido de manter a maioria no limbo, caso não fosse possível segurá-la debaixo do tacão. Neste nosso limbo terrestre a ignorância é comum a todos, mas, obviamente, o poder pertence a poucos, certos de que lhes cabe por direito divino. Indispensável à tarefa, a contribuição do mais afiado instrumento à disposição, a mídia nativa. Não é que não tenha servido ao poder desde sempre. No entanto, nas últimas décadas cumpriu seu papel destrutivo com truculência nunca dantes navegada.
Falemos, contudo, de amenidades do vídeo. De saída, para encaminhar a conversa. Falemos do Big Brother Brasil, das lutas do MMA e do UFC, dos programas de auditório, de toda uma produção destinada a educar o povo brasileiro, sem falar das telenovelas, de hábito empenhadas em mostrar uma sociedade inexistente, integrada por seres sem sombra. Deste ponto de vista, a Globo tem sido de uma eficácia insuperável.
O espetáculo de vulgaridade e ignorância oferecido no vídeo não tem similares mundo afora, enquanto eu me colho a recordar os programas de rádio que ouvia, adolescente, graciosas, adoráveis peças de museu como a PRK30, ou anos verdolengos habitados pelos magistrais shows de Chico Anysio. Cito exemplos, mas há outros. Creio que a Globo ocupe a vanguarda desta operação de imbecilização coletiva, de espectro infindo, na sua capacidade de incluir a todos, do primeiro ao último andar da escada social.
(...)
... Um músico e poeta italiano do século passado, Fabrizio de André, cantou: “Nada nasce dos diamantes, do estrume nascem as flores”. E do deserto?

ONDE FOI PARAR O SEU SONHO?


Crônica do Villas - Aberto Villas - Carta Capital

31.01.2013 09:30

Onde foi parar o seu sonho?

Sempre que começa um ano fico aqui pensando onde foram parar os sonhos das pessoas. Logo eu, que um dia sonhei morar numa casa ecológica no meio do mato e hoje vivo na maior cidade da América do Sul entre automóveis e arranha céus, buzinas, fumaças e cheiro de gasolina.
Galeria de justinknabb/Flickr
Galeria de justinknabb/Flickr
Gostaria de saber onde foi parar o sonho de Aretuza, que vivia escondida e clandestina no DCE de Belo Horizonte enquanto a sede da UNE na Cidade Maravilhosa ardia em chamas.
O sonho de Todinho, companheiro do Colégio de Aplicação que jogava nos policiais pedaços de paralelepípedos lá do último andar da Faculdade de Filosofia.
(...)

De Azeitona, que abandonou os estudos em Belo Horizonte e chegou a Paris disposto a estudar Agronomia sonhando plantar café no sul de Minas Gerais.
De Elena, que queria porque queria zarpar para a África disposta a pegar em armas e lutar ao lado das companheiras do MPLA.
Gostaria de saber onde foi parar o sonho de quem  dormiu no sleeping bag, de quem quase morreu de amor no Estácio, de quem botou o bloco na rua, de quem manteve a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.
Gostaria de saber onde foi parar o sonho daqueles que, em Santiago do Chile , na calada da noite cantavam La Palmatoria ao lado de Victor Jara. O sonho daquela  multidão na Praça da Revolução em Havana acompanhando Pablo Milanés cantando Amo esta Isla.
Gostaria de saber onde foi parar o sonho daqueles malucos que nas tardes de sábado sentavam no chão do Cine Pathé para assistir Easy Rider pela décima vez. O sonho daqueles que tiraram a roupa e mergulharam na lama em Woodstock. O sonho daquelas que queimaram sutiãs em praças publicas nos quatro cantos do mundo.  Daqueles que estavam ali à beira da cama de John e Yoko em Amsterdam entoando Give Peace a Chance e daqueles que cantaram juntos Let the Sunshine In em Hair.
Sempre que começa um ano faço uma faxina na minha revistaria. Dessa vez caiu em minhas mãos um exemplar da antiga Argumento, um número que trazia um ensaio fotográfico primoroso de Ricardo Mendes.
“Qual é o seu maior sonho?”, perguntou ele no título. Baseado no trabalho do fotógrafo Martín Weber, que realizou a exposição A Map of Latin American Dreams, Mendes pediu a cada um que escrevesse numa pequena placa o seu maior sonho.
O que mais me impressionou foi o sonho de Bigode, o guardador de carros que trabalhava em frente à Livraria Argumento do Leblon. Ele escreveu simplesmente: “Encontrar Sueli”. Com certeza um antigo amor  que ficou à beira do caminho perdido no tempo e no espaço.
(...).